Feeds:
Posts
Comments

Não passo um dia sem te desejar, nem uma noite sem te apertar nos meus braços; não tomo uma chávena de chá sem amaldiçoar a glória e a ambição que me mantém afastado da vida da minha vida. No meio das mais sérias tarefas, enquanto percorro o campo à frente das tropas, só a minha adorada Josefina me ocupa o espírito e coração, absorvendo-o por completo o pensamento. Se me afasto de ti com a rapidez da torrente de Ródano, é para tornar a ver-te o mais cedo possível. Se me levanto no meio da noite para trabalhar, é no intuito de abreviar a tua vinda, minha amada.

E, no entanto, na tua carta de 23, tratas-me na terceira pessoa, por Senhor! Que mazinha! Como pudeste escrever-me uma carta tão fria? E depois, entre 23 e 26 medeiam quase quatro dias: que andaste tu a fazer, porque não escreveste a teu marido?… Ah, minha amiga, aquele tratamento do “senhor” e os quatro dias de silêncio levam-me a recordar com saudade a minha antiga indiferença. (…) Isto é pior que todos os suplícios do Inferno. Se logo deixaste de me tratar por tu, que será então dentro de quinze dias?! Sinto uma profunda tristeza, e assusta-me verificar a que ponto está rendido o meu coração. Já me queres menos, um dia deixarás de me querer completamente; mas avisa-me, então. Saberei merecer a felicidade…

Adeus, mulher, tormento, felicidade, esperança da minha vida, que eu amo, que eu temo, que me inspira os sentimentos mais ternos e naturais, tanto como me provoca os ímpetos mais vulcânicos do que o trovão. Não te peço amor eterno nem fidelidade, apenas a verdade e uma franqueza sem limites. No dia em que disseres: “Quero-te menos”, será o último dia do amor. Se o meu coração atingisse a baixeza de poder continuar a amar sem ser amado, trincá-lo-ia com os dentes.

Josefina: lembra-te do que te disse algumas vezes: a natureza faz-me a alma forte e decidida. A ti, fez-te de rendas e de tule? Deixaste ou não de me querer? Perdão, amor da minha vida. A minha alma está neste momento dividida em várias direções e combinações, e o coração, só em ti ocupado, enche-se de receios… Enfada-me não te chamar pelo teu nome, mas espero que sejas tu a escrevê-lo.

Adeus. Ah, se me amas menos, é porque nunca me amaste. Tornar-me-ias então digno de lástima.

Napoleão

 

P.S. – A guerra este ano está irreconhecível. Mandei distribuir carne, pão, e forragens à minha cavalaria prestes a pôr-se em marcha. Os soldados patenteiam-me tal confiança que não tenho palavras para descrever-te. Só tu me causas desgostos. Só tu, alegria e tormento da minha vida. Um beijo aos teus filhos, de quem não me dás notícias. Ai, não! – levar-te-ia a escrever o dobro, e as visitas das dez da manhã não teriam o prazer de ter ver. Mulher!

 

Napoleon on his Imperial throne by Jean Auguste Dominique Ingres (1780–1867), painted 1806.

Napoleon on his Imperial throne by Jean Auguste Dominique Ingres (1780–1867), painted 1806.

Para a Amada Imortal

 

Manhã de 6 de Julho

Meu anjo, meu tudo, meu próprio ser – Hoje apenas algumas palavras a caneta (a tua caneta).

Só amanhã os meus alugueres estarão definidos – que desperdício de tempo… Por que sinto essa tristeza profunda se é a necessidade quem manda? Pode o teu amor resistir a todo sacrifício embora não exijamos tudo um do outro? Podes tu mudar o fato de que és completamente minha e eu completamente teu? Oh Deus! Olha para as belezas da natureza e conforta o teu coração. O amor exige tudo, assim sou como tu, e tu és comigo. Mas esqueces-te tão facilmente que eu vivo por ti e por mim. Se estivéssemos completamente unidos, tu sentirias essa dor assim como eu a sinto.

O meu dia foi terrível: ontem só cheguei aqui às 4 horas da manhã. Com a falta de cavalos, o cocheiro do correio escolheu um novo caminho, mas que terrível caminho, na penúltima paragem eu fui avisado para não viajar à noite, fiquei com medo da floresta, mas isso só me deixou mais ansioso – e eu estava errado. O cocheiro precisou parar na infeliz estrada, uma imprestável e barrenta estrada. Se eu estivesse sem todas as coisas que trago comigo teria ficado preso na estrada. Esterhazy, viajando pela estrada, teve o mesmo problema com oito cavalos que eu tive com quatro – sinto prazer com isso, como sempre sinto quando supero com sucesso as dificuldades.

Agora uma rápida mudança das coisas externas para as internas. Nós provavelmente devemos nos ver em breve, entretanto, hoje eu não posso dividir contigo os pensamentos que tive nos últimos dias sobre minha própria vida – Se os nossos corações estivessem sempre juntos, eu não teria nenhum… O meu coração está cheio de coisas que eu gostaria de te dizer – ah – há momentos em que sinto que esse discurso é tão vazio – Alegra-te – Lembra-te da minha verdade, o meu único tesouro, o meu tudo como eu sou o teu. Os deuses devem-nos mandar paz…

Teu fiel Ludwig

 

Segunda de tarde, 6 de Julho

Tu estás a sofrer minha criatura adorada – só agora percebi que as cartas deveriam ser enviadas nas segundas ou quintas de manhã cedo – os únicos dias nos quais o correio vai daqui para K. – Tu estás a sofrer – Ah, não importa onde eu esteja porque tu estás comigo – Vou arrumar tudo para que possamos viver juntos… E que vida teremos! Assim!

Sem ti… Perseguido pela bondade de algumas pessoas, que não quero receber porque não as mereço. Dói-me a humildade do homem diante do homem. E quando me acho em sintonia com o Universo, o que sou e quem é aquele a quem chamam o Todo Poderoso? E sem dúvida… Aí então aparece de novo o divino do homem.

Choro ao pensar que provavelmente não receberás a minha primeira carta antes de sábado. Tanto como tu me amas, muito mais te amo!… Boa noite! Devo ir dormir. Oh, Deus! Tão perto! Tão longe! Não é o nosso amor uma verdadeira morada do céu? E tão sólido como as muralhas do céu?!

 

7 de Julho

Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam os meus pensamentos em ti, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho é-me possível, ou inteiramente contigo, ou completamente sem ti. Quero ir bem longe até que possa voar para os teus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar a minha alma ao reino dos espíritos envolta contigo. Tu concordarás comigo, tanto mais que conheces a minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca… Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim?

Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Tu, amor, tens-me feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo que preciso de uma certeza na minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento?… Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso me faz pensar que tu receberás a carta em seguida.

Fica tranquila. Contemplando com confiança a nossa vida alcançaremos o nosso objetivo de vivermos juntos. Fica tranquila, queiras-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em ti… Em ti… Em ti, minha vida… Meu tudo! Adeus… Queiras-me sempre! Não duvides jamais do fiel coração de teu enamorado Ludwig. Eternamente teu, eternamente minha, eternamente nossos.

Beethoven

Ludwig van Beethoven

Portrait Ludwig van Beethoven when composing the Missa Solemnis, by Joseph Karl Stieler (1781-1858)

No próximo sábado, dia 5 de dezembro, será uma data muito importante. Tão importante que deveria virar feriado, será um acontecimento histórico—bom, histórico dentro da minha ordinária vidinha—praticamente. Esse será o dia em que ficarei frente a frente com uma das pessoas que mais amo no mundo, isso se não for a que mais amo. E não tenho certeza de que ele sabe disso. E isso dá medo.

Bom, conheço-o há quatro meses. Foi numa dessas redes sociais da internet que nos encontramos. Sei que pensará que é pouco tempo para que tão nobre sentimento pudesse aflorar, ou que essas relações “virtuais” não são verdadeiras… Mas quanto tempo ou quais condições Amor determina para que duas pessoas ajam de forma honesta e se apaixonem? Ninguém pode responder isso.

Ele tem nome de anjo e é mais novo que eu, mas apenas alguns anos. Começamos a conversar. Apesar de que no início ele era desconfiado, as conversas foram… Maravilhosas. Em nossas conversas, desde os primeiros dias, falamos de tudo e nos ligamos um ao outro por tudo isso. Desde então conversamos quase todos os dias. Hoje temos nossas piadas internas e acabamos explicitando nosso desejo de engatar um namoro. Melhor dizendo, ele explicitou esse desejo e de forma bastante incomum, de um jeito que me deixou sem saída: “Queria saber quando você vai me pedir em namoro…” Na verdade, eu não queria ter saída. Fiquei extremamente feliz de ver que nós queríamos a mesma coisa.

Nós temos rotinas diferentes e é difícil ter um tempo certo para nos falarmos. Só a madrugada cede tempo para termos uma conversa decente. Mesmo com sono, quando queremos nos falar de verdade, é… Fácil. Tão simples e fácil e direto… Nunca me canso de conversar com ele. Sei que posso contar-lhe qualquer coisa. Não porque eu quero, não porque eu quero que haja alguém que saiba tudo de mim. Eu não me importo com isso. Mas porque eu posso; nós podemos. Nesses quatro meses, nós nos aproximamos de tal modo que nunca pensei que fosse possível acontecer. Ele se tornou meu amigo mais próximo e eu, a amiga mais próxima dele, penso. Madrugadas inteiras podem contar nossos diálogos sobre sexo, amor e os versos que brotaram disso, nossos ensaios filosóficos, científicos, artísticos e até nossas sessões particulares de terapia. Nós, de fato, conversamos sobre tudo. Nós elogiamos o que admiramos um no outro, nossas opiniões e lazeres são similares, mas não tão similares a ponto de não termos coisinhas para ridicularizar o outro, mas brincando, obviamente.

Sim, ele é muito bonito. E esperto, talentoso, atencioso, carinhoso e inteligente. Ele é aquela pessoa que você quer odiar por ser tão incrível, mas no fim você a acaba amando por isso. E foi o que aconteceu: eu o amo. A natureza desse amor é complicada de se descrever. Está no limite entre platônico e não platônico, pois apesar de ele ser sob muitos aspectos o rapaz que devia estar guardado para mim, nós estamos muito, mas muito longe um do outro fisicamente. Esse é o único empecilho, por assim dizer. No mais, eu só quero ter a chance de fazê-lo feliz. Eu gosto quando ele me chama bem tarde da noite, me conta os problemas do dia dele e eu consigo fazê-lo se sentir melhor. Eu consigo fazê-lo rir. E eu gosto quando ele me manda mensagens do nada e acaba mandando várias. Aí, eu mando várias também, tentando vencê-lo no quesito “sou mais kawaii e engraçadinha que você!” Nós simplesmente… Funcionamos bem juntos.

Você já teve alguém com quem tudo simplesmente funcionasse? Essa é a primeira vez que sequer vejo isso como algo concebível para a minha pessoa. Não que seja tudo perfeito o tempo todo. Claro que há conflitos. Sou uma pessoa difícil às vezes, então conflitos são inevitáveis… Tenho muitas feridas abertas ainda e meus muros se erguem quando sinto que posso me machucar. Sempre que isso acontece, ele fica sem saber como proceder. E quando eu não sou difícil, ele é. Ele sempre precisa de explicações e atenção com certo tipo de toque que muitas vezes não sei como dar. Quando isso acontece, aí é minha vez de ficar sem chão. Mas mesmo assim. As coisas simplesmente funcionam. Tudo é tão simples com ele. E quando algumas dessas coisas dão erradas, sabemos que podemos conversar e resolver, pois temos liberdade para tal.

Agora, dias antes do histórico encontro, minha ansiedade tomou rumos inesperados e amplificou meu medo. Mesmo com tantas descobertas e seguranças, ela encontrou válvulas de escape erradas e acabou por congelar as coisas boas que tenho com esse rapaz. O aperto no peito é dão dolorido quanto de uma adolescente numa tragédia shakespeariana. Odeio a ideia de que ao encontrá-lo ele não veja a amiga que tem de verdade… Contudo, tenho tentado manter uma coisa em mente, uma coisa que li quando minha ansiedade resolveu colocar tudo a perder: “Para obter algo que você nunca teve, precisa fazer algo que nunca fez”. Ler isso me fez perceber que para ter o que tanto sonhei com esse rapaz, para que ele me veja com olhos puros, eu tenho de fazer o que nunca fiz antes. Tenho de engolir meu medo e deixá-lo ver nos meus olhos, na minha voz e nos meus braços que eu sou quem ele vê à distância.

 

I love him...

I love him...

Dear Diary: Miau

The Cat Piano

by Eddie White

 

Long ago my city’s luminous heart, beat with the song of four thousand cats.

Crooners who shone in the moonlight mimicry of the spotlight.

Jazz singers. Hip cats that went ‘Scat!’

Buskers with open-mouthed hats hungry for a feed.

Parlours paraded purring glamorous songstresses.

Smoky hookahs and smoking hookers.

Strays strummed string and sung a cocktail of cat’s tails.

A decadent party of meowing sound.

A bohemian behemoth, post-midnight soiree.

 

Amongst the chorale ‘o tuneful ones was one fair queen who drew me from o’er the way.

Her fur, an amorous white and a voice that made all the angels of eternity sound tone deaf.

Blind with love at first sight, touched by the taste of her sound,

I longed to be the microphone she cradled near her breast.

 

‘Twas our Shang-ri-la of sound,

A paradise found where nothin’ could stop us.

Or so it seemed.

 

Singers began to vanish like sailors lost at sea.

Snatched from stage alley way

Shanghai’d from behind scarlet curtain.

Into thin air they disappeared without a single cry.

Police study the clues.

Foot-prints from human shoes.

 

So you’ve heard of every instrument but?

Torn from your history books is this pianola,

This harpsichord of harm.

The cruellest instrument to spawn from man’s grey cerebral soup.

The Cat Piano.

 

Confined were the cats in a row of cages.

With each note struck upon it’s ivory tusks,

A sharpened nail would pierce each cat’s tail,

Forcing a note from each pitch on the scale.

 

I ran my cursed writer’s run to tell her beware.

She wasn’t there.

My soul capsized.

Like a fish, paralysed.

On a chopping board, its spinal cord ripped forth from its body,

Her vocals the last the thief had needed,

A rare celestial pitch that would complete his collection.

 

The city in unrest.

Fights broke out in its sleep.

I couldn’t dream anymore.

There was a hole in my heart and everything fell out of it.

All music forbidden.

Keep your lullabies hidden.

And your A and E minors off the street after dark.

 

My town grew cold and bitter.

In icy hibernation was the once thumping heart.

Now seizing up.

Freezing up.

 

Katzenklavier.

The torturous worm of sound burrowed deep into my ears.

Le Piano du chat

I thought of Van Gogh.

Neko Piano.

I’d put an end to this incessant, inescapable drone.

Mao Gang Qin

 

I enlisted an army of the brave and I their general declared war.

Poised with tooth and fire in paw.

We would finally settle this musical score.

Eyes with fierce intent that glowed.

Through tempestuous waters we rowed.

Storming the shores,

Swarming in scores,

Scaling its walls with well-sharpened claws,

We invaded the tower through all its doors.

 

Up the winding stairs,

To meet him with blinding stares.

There he sat.

The organ grinder.

 

He turned, we pounced, we scratched and bit.

He stumbled.

Fell through the window.

Screaming into the indigo waters below.

 

We freed the chain gang from their jail.

Cremated the piano.

And for home we set sail.

 

The city had reclaimed its vestal muse.

It would live again.

Beat again.

Cats would sing in the street again.

And I in anonymity as I had been long before this soliloquy,

Could sit and listen from afar.

The Cat Piano, now a healed over wound.

And this ode its fading scar.

 

Dear diary: Manhã

É, amanheceu. Lentamente o sol se espreguiça e desamassa seus raios, tão amarelinhos. O dia então começa, como um sorriso seu: naturalmente e tímido, mas com um jeito maroto de quem sabe que é benquisto.

Cada raio que aquece a terra faz desabrochar uma florzinha. Assim também são nossas ideias, desabrochando afetos com a voz um do outro e que exalam sedutor olor. Nossas conversas são polinizadoras do nosso interesse. Enquanto as borboletas libertam suas asas de seus casulos para secá-las ao sol, a manhã também liberta um mundo de cores quando percebo que é você quem pinta meus dias com seus insights e poesia.

As formigas voltam a trabalhar, transitando em suas filas. As pessoas se levantam para fazer o mesmo. Sinto a energia se elevar em meus nervos e em meu pensamento. Como é bom ser capaz de produzir! Seja estudo, seja carinho, tudo faz meu sangue pulsar na melodia dos sabiás no alto dos eucaliptos.

Tudo em casa fica azul de repente. Azul sereno e acolhedor, despertando-me suspiros de receber seu beijo de bom dia. Mmm… Que dia! O café dá o tiro de largada para nossas esperanças luminosas nas próximas horas. Esperanças macias de trabalho, de plantar atenção e colheita de amor. Esperanças azuis de sonhos, de beijos sabor café que não sejam passageiros. (Suspiro) É, amanheceu. Amanheceu no mundo e no meu coração.

Manhã azul...

A Janela Azul - Henri Matisse (1911)

É madrugada. A penumbra se alastra pelo quarto. Deito-me, olhando na direção dele e sem dizer palavra. Meus olhos mudam a cada segundo dos seus olhos para a sua boca, para seu pescoço, de volta para os olhos… Deixo meus lábios entreabertos e suspiro levemente. Ele entende o que quero e põe fim à minha expectativa num único movimento. Toca-me. Suas mãos percorrem minha pele e o desejo se alastra pelos meus nervos. Vejo seu corpo largo se aproximando, cobrindo o meu num abraço firme. Minha respiração atinge um novo pico a cada investida de suas mãos.

Minha agonia começa a crescer quando sua boca se une às suas mãos nas carícias. Ele posta-a roçando a minha e passa por ela, beijando meu rosto. Desce para o pescoço, mas sem me tocar diretamente. Meus pelos se levantam imediatamente ao sentir seu hálito quente. Mais um beijo suave é entregue e segue trilhando seu caminho quente entre meus seios. Ele os toca com as duas mãos e os une suavemente, deslizando a boca pelos dois num suspiro que me faz abraçá-lo para que avance com a boca neles, mas ele resiste. Meus seios então tremem com a vontade aguda da sua língua.

O vento frio entra pelas frestas da janela e uma chuva começa a cair. Num gesto de escape, meus dedos querem se perder nos cabelos dele, na nuca dele… Abro as pernas enquanto ele se debruça em meu ventre e acaricio seu torso com minhas coxas. A boca dele segue decidida a me torturar, distribuindo beijos levíssimos e suspiros, suas mãos apertando minhas coxas e meu quadril. Minhas mãos acompanham as dele, querendo sentir suas intenções.

Algumas gotas da chuva respingam sobre nós, em nossas peles já muito cálidas. Ele continua a descer, distribuindo beijos pelo meu púbis. Pela respiração sinto sua boca encarando-me… Aproximando-se… Roçando-me… Culminando num beijo de língua urgente e macio, camuflando sua voz. Agarro o lençol, arqueio as costas e minha inspiração se mistura a um gemido. O vento uiva pela janela. Um beijo longo, molhado, mas um apenas. E aquele corpo largo volta num repente, colando seu beijo molhado nos meus seios impacientes. Minha voz se desprende e acompanha a dele, ainda camuflada.

Sua boca finalmente leva seus beijos para a minha. Sinto-o entrar em mim enquanto nossas línguas se acariciam. A noite fica muda. Ela silencia seus murmúrios misteriosos para, então, ceder lugar ao som dos nossos beijos e gemidos. O ritmo e a ação da chuva parecem os mesmos dos nossos corpos querendo ser um só. Invadindo, molhando, escorrendo… Nossas vozes são trovões que correm a distância dentro da noite, até que em um sopro de divindade a tormenta alcança seu ápice em fachos luminosos. A chuva vira garoa carinhosa e tudo cessa devagar, menos as batidas dos nossos corações que continuam a sussurrar “Eu te amo…” noite adentro.

Eu te amo...

The Embrace - Henri Matisse

Dear Diary: Dragão

Vejo um movimento não habitual no céu daquela noite inerte. Um lampejo entre as nuvens lamacentas manchando o veludo negro. Fixo o olhar, curiosa, na esperança de que o fenômeno se repita. Mais um lampejo, dessa vez seguido de um trovão macio. O que era brisa até então do nada se apressa; parece ter urgência em me fazer uma revelação. Com energia, ela afasta as nuvens para que eu descubra um luzidio dragão azul.

Minha fascinação é imediata, o que me faz debruçar na janela sem perceber. Sinto a ventania aumentar, balançando meus cabelos e  atingindo meu rosto como a mão fria de alguma entidade que me chama para o ar. Minha pele percebe a dança ondulada do dragão quando esse vento a toca. As tímidas gotas d’água começam a cair, lentamente, até que todas se unem para apresentar o balé da chuva.

Fecho os olhos de momento em momento, respirando profundamente e controlando o bater do meu coração. Cada rajada  afasta as nuvens e cada gota me arrepia os pelos e me faz expirar alto. A chuva escorre em meus cabelos, rosto, peito e me lava a alma. Acaricio a água e me despeço dela antes que pingue dos meus dedos. Pulsa em minhas veias a beleza do dragão que brilha com a chuva. Sinto sua doçura se infiltrando nos meus músculos, na minha mente… E de repente, o balé cessa e a sujeira que tinha em mim desaparece. Fito o céu novamente e ele está agora feito de estrelas. Para a minha surpresa, dentro de mim também está.

 

Rolo dos nove dragões

"Rolo dos nove dragões", Chen Rong (Dinastia Song do Sul)

À mesa com Camões

 

Que seria dos aventureiros dos fogões sem os livros de receitas? Aventureiros somos aqueles cozinheiros sem a obrigação diária de agradar, aqueles desprovidos da prática dos militantes e que buscam rumos nas receitas. Elas são a certeza de que não estaremos perdidos no meio da aventura. Enquanto dormem na gaveta, são nosso arquivo de desejos ou memória de bons momentos; quando as procuramos, ainda sem ter escolhido o prato, são o nosso campo de desafios; quando finalmente elegemos uma, são a antecipação de delícias. É possível salivar lendo uma receita.

Como terá sido no passado? Nos livros da Antiguidade, receitas são raridade. Fala-se de um livro na Mesopotâmia, de outro, um grego que não sobreviveu, de um romano do ano 1 depois de Cristo, de vários europeus entre os séculos XIII e XVI, uns às vezes copiando os outros, fala-se de alguns mais nos séculos seguintes, do primeiro do Brasil, no século XIX (O Cozinheiro Imperial), fala-se dos cadernos das avós e bisavós nas mais diversas culturas, até chegarmos à profusão de publicações em livros, jornais e revistas do século XX, o século das receitas. O século pop.

As receitas, ao viajar pelo mundo antigo junto com os condimentos, globalizaram sabores. Alguns, estranhos. E os nossos ancestrais brasileiros, como se alimentavam? Pistas sobre o que comiam os portugueses na época em que esbarraram no Brasil, na virada do século XV e na primeira metade do XVI, estão nos cadernos de receitas de uma princesa portuguesa dos anos de 1500 encontrados na Biblioteca de Nápoles.

Imaginemos Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz de Caminha encontrando-se numa taverna das melhores gentes de Lisboa para um jantar, a fim de traçar planos de viagem. E, já que estamos imaginando, em outra mesa estaria Vasco da Gama divertindo-se com o dramaturgo Gil Vicente e contando-lhe histórias do caminho marítimo para as Índias. As diferenças começam na palavra jantar. A refeição do fim da manhã chamava-se jantar; a do começo da noite era a ceia; almoço era o primeiro alimento da manhã.

Cabral e Caminha dividem uma galinha albardada. A receita? Galinha temperada e assada, cortada em peças, envoltas estas em ovos batidos, fritas na manteiga, e vão fatias de pães preparadas e fritas do mes¬mo jeito, depois tudo é passado pelo açúcar com canela e servido em um prato, com esses pães (chamados ‘sopas’) por baixo, polvilhando-se por cima de tudo mais açúcar e canela. Os dois fidalgos se servem do mesmo prato, cortando a galinha com suas próprias facas e comendo com as mãos.

Gama e Vicente já estão no segundo prato, tigelada de perdiz, que primeiro é cozida com um pedaço de toucinho, cheiros-verdes e sal, depois esquartejada, envolta em ovos batidos com açúcar, servida por cima de fatias de pão embebidas em calda de açúcar.

Açúcar na galinha? Na perdiz? Nas carnes de vaca, de porco, no toucinho? Estranho, mas Camões comia. O açúcar era uma finalização comum de vários pratos salgados e entrava na preparação de outros tantos. É o ingrediente mais citado nas receitas da princesa, reunidas no Livro de Cozinha da Infanta D. Maria. As rabanadas que conhecemos hoje como sobremesa, comuns no Natal, não tinham esse nome e iam arrumadas por baixo das carnes. Do arroz, só constam pratos doces, com leite.

Não há nenhuma referência ao alho nas 67 receitas da infanta. Estranho. Há temperos atuais, muitos levados do Oriente e do Mediterrâneo – açafrão, azeite, canela, cebola, coentro, cominho, cravo, erva-doce, gengibre, manteiga, óleo de flores, hortelã, pimenta, sal, salsa, sumo de limão, vinagre -, mas alho, não. Natural que não houvesse referência a tomate, batata, milho, feijão, peru, pimentão, amendoim, chocolate, produtos das recém-descobertas Américas, mas o alho era conhecido desde a Antiguidade. Talvez ela não gostasse. Ou o marido.

Viram? Livros de receitas, além do mais, nos levam a viajar por terras e épocas.

 

por Ivan Angelo (Veja – 22/10/2009)

À mesa com Camões

"Frango à vista!"

Older Posts »